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Falta assistência a idosos usuários de drogas no Brasil

Segunda, 06 de março de 2017.

12042016 cocaina govMGUm capítulo pouco abordado sobre a Segunda Guerra Mundial deixou uma herança ingrata para a geração pós-guerra: o uso livre e estimulado de drogas ilícitas e álcool no período desencadeou num alto número de idosos dependentes químicos, assunto quase nunca abordado.

Segundo a psiquiatra especialista em dependência química, Helena Moura, somente agora é que esta população começou a ser enxergada como usuária de drogas. “É a população de Woodstock envelhecendo. É a partir de Woodstock que se tem essa cultura da droga como diversão, interação social”.

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013 identificou que 14,2% da população com mais de 60 anos ingere bebida alcoólica uma vez ou mais por semana. Desses, 4% havia consumido cinco ou mais doses nos 30 dias anteriores ao inquérito. Para especialistas, esse número subestima a realidade. A PNS não traz informações sobre consumo de drogas ilícitas.

Embora faltem estudos epidemiológicos nacionais, alguns pesquisadores têm investigado o tema para tentar traçar o perfil dos usuários de álcool e drogas com mais de 60 anos. Um desses trabalhos, da psiquiatra e especialista em dependência química Sandra Pillon, avaliou os dados de 191 idosos atendidos de 1996 a 2009 no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas de Ribeirão Preto (Caps AD), em São Paulo.

A maioria dos entrevistados era formada por homens (90,6%), tinha baixa escolaridade (78,4%) e estava aposentada (86%). As drogas com maior uso foram álcool, maconha, crack e cocaína, mas também houve registros de solvente e medicamentos tarjados em excesso.

O universo do estudo correspondeu a 3,2% de todos os atendidos na unidade do Caps avaliada, levando os pesquisadores a concluir que “o número de idosos que buscam assistência especializada é muito baixo”.

Ademais, nem todo profissional da saúde está treinado para reconhecer a dependência entre idosos, segundo a psiquiatra Alessandra Diehl, preceptora da residência médica em psiquiatria do Instituto Américo Bairral, em São Paulo. De acordo com a psiquiatra, além do desconhecimento, muitas vezes a dependência passa despercebida por médicos e enfermeiros porque os sintomas do abuso podem mimetizar os de doenças físicas comuns na faixa etária, como depressão e demência.

Falta políticas públicas
Para Diehl, há falta de políticas públicas voltadas a essa demanda. “Elas ainda não conseguiram alcançar o fenômeno da dependência química da terceira idade e, apesar do crescimento do número de idosos sofrendo com os danos pelo uso de álcool, tabaco, e, principalmente pelas drogas prescritas, como analgésicos e benzodiazepínicos, essa condição permanece subestimada, subidentificada, subdiagnosticada e subtratada em nosso país. A atenção primária, que deveria ser a porta de entrada da rede de serviços de saúde, não conta com geriatras, clínicos ou outros profissionais suficientemente capacitados a identificar e atender esta demanda”, diz.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que “o atendimento aos pacientes com mais de 60 anos com necessidades decorrente do uso de álcool e outras drogas devem ocorrer no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial, que conta atualmente com 2.457 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em todo o país. No Distrito Federal são 14 unidades”.